O Tempo e o Vento – Erico Veríssimo

Oi gente, quero começar pedindo desculpas, sumi de novo, a faculdade não está me deixando respirar mais ahahaha 😢 Aliás, já falando em faculdade, na última semana causei certa polêmica por lá me vestindo assim:

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Caso algum leitor não seja gaúcho, eu explico: Hoje, dia 20 de setembro, é feriado por aqui, dia em que se iniciou a Guerra dos Farrapos, que veio a dar origem à República Ri0-Grandense.

A polêmica é claro, porque não sou NADA tradicionalista, nem chimarrão tomo, mas o que pouca gente sabe é que o meu livro favorito é dos mais tradicionalistas sim… E é claro que estou falando da maior saga familiar já escrita no país: O Tempo e o Vento.

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Minha história com Érico Veríssimo começou em fins de 2012, no último ano da escola, por lá mesmo. Passava muito tempo na biblioteca, sempre que possível, fugindo de aulas como química e física. Nessa mesma época descobri livros de Vinicius de Moraes, também. Não que passasse o tempo todo lendo, pois em grande parte gostava mais de vasculhar as estantes, que na época não possuía um livro que não fosse velho e poeirento (hoje sei que a escola mudou muito, pra melhor. Que sorte dos alunos de agora!).

Gosto da aura dos livros antigos, mas devido à rinite e outros problemas más, procuro ler livros novos e bem cuidados. Foi quando achei os dois primeiros volumes de O Tempo e o Vento. Edição cinza, capa dura, creio que faltavam páginas, mal cuidada como tudo que é público (nem era tão antiga assim, a edição do ano que nasci, mas estava muito pior do que apenas, na época, 16 anos) e havia muitos, muitos ácaros. Li a sinopse e me agradei do assunto. Pesquisei mais e descobri que não havia todos os livros na escola. Em casa mesmo, descobri “Um Certo Capitão Rodrigo”, esquecido em uma estante. Li e gostei muito. Então decidi juntar dinheiro e depois de alguns meses comprei toda a coleção.

Essa série é divida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago, e começa contando a história da formação do chamado “Continente de São Pedro”, hoje nosso Rio Grande do Sul, e termina em 1945.

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No primeiro volume, conta-se a história da formação do nosso estado, traçando-se uma linha do tempo entre as famílias que deram origem à cidade fictícia de Santa Fé, localizada próxima de Cruz Alta, cidade natal do Erico Veríssimo.

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A primeira parte é a mais famosa, tendo dado origem ao filme de 2013 (que assisti na estreia, com muito orgulho!). Nela conhecemos a Ana Terra e sua história de sofrimento, de mulher “desonrada” que vai à busca de uma nova vida junto de seu filho pequeno. Eles vão para o recém formado povoado de Santa Fé, onde a família Amaral está chamando pessoas para criar uma cidade. Esse filho de Ana Terra acaba por ter posteriormente uma filha chamada Bibiana, que virá a ser uma das personagens mais importantes da saga. Bibiana se apaixona por um chamado “forasteiro”, o Capitão Rodrigo Cambará, e aí temos o foco principal da narrativa.

O capitão Rodrigo é a caricatura do “homem gaúcho”, pronto sempre pra peleja, com atitudes que hoje seriam vistas como machistas, sempre com a ânsia de se mostrar “viril”. Ele bebe, ele toca violão, e qualquer olhar torto é motivo para um duelo. Nem por isso o romance entre ele e Bibiana não se mostra cativante, sendo na minha opinião um dos mais bonitos da literatura.

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Rodrigo e Bibiana, em filme da Globo (2013). Mesmo após a morte, ele continua a visitando.

Rodrigo Cambará falece em peleia, e como sempre dizia “Cambará macho não morre na cama!”, frase que se perpetua nas gerações seguintes. O amor à guerra também se faz muito presente nos personagens masculinos do livro.

Ainda em O Continente, temos a Revolução Farroupilha e também a Federalista, bem como outras as quais o Rio Grande do Sul participou, como a Guerra do Paraguai. Guerras que moldaram a trajetória e cultura de todo um povo.

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Em O Retrato, a história da família (agora Terra-Cambará) continua. Temos o Dr. Rodrigo Terra Cambará, um médico que embora descendente do Capitão, mostra uma personalidade muito sofisticada, veste-se sempre impecável, elegante (a família o chama de “afrescalhado”), idolatra a cultura francesa, livros, óperas, e tudo que há de mais requintado. Um pintor de Santa Fé lhe presenteia com um retrato (lembra muito O Retrato de Dorian Grey), e conforme Rodrigo vai envelhecendo, ele olha para O Retrato com saudosismo, desejando sempre ser jovem, o “macho alfa” – traço esse que é o único que se mostra igual ao Rodrigo “original”.

“Todos somos cadáveres, eu, tu, o Calgembrino, o prefeito, o papa… Só as obras de arte é que são vivas, e sempre estarão vivas.” (O Retrato)

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Válido ressaltar essa passagem, ainda de O Retrato, que transmite muito bem o sentimento heroico do povo gaúcho:

“Marchavam numa cadencia dura, quase militar, e parecia que sua noção de divertimento tinha muito a ver com a produção de barulho. Que moçada sem graça! – pensou Rodrigo, que os contemplava de sua janela. Mas não gostou quando Rubim, pousando-lhe a mão no ombro, disse:
– Os gaúchos, me desculpe a franqueza, são um povo triste e sem encanto. Olhe só esses rapazes: não cantam, não dançam, não riem, não brincam. Ali vão graves e compenetrados como se estivessem a cumprir um dever cívico ou religioso. E depois, meu caro, vocês aqui no Sul não têm musica própria, nem arte popular, nem tradição.
[…]
– Que queres? Passamos a vida brigando desde os primeiros tempos do povoamento do Continente. Tivemos onze campanhas em setenta e sete anos, veja bem, onze! Não nos sobrou muito tempo para fazer música, dançar ou cantar. Os castelhanos nunca nos deixavam em paz!
– E quando deixavam, éramos nós que íamos provocá-los…
– Isso! Praticamente trabalhávamos com a enxada numa mão e a espingarda na outra, porque o inimigo podia surgir a cada momento.
[…]
– O que nos tem faltado não é imaginação, mas tempo, vagares, tranquilidade. E, depois, me parece fora de dúvida que as lendas e superstições nascem do mistério, do medo. Ora, na nossa paisagem não há mistério. […] Quanto ao medo, creio que é coisa que aqui não conhecemos.”

(O Retrato)

Na última parte, O Arquipélago, temos bastante informação sobre a política da época, sendo o Dr. Rodrigo agora deputado, convivendo com homens como Getúlio Vargas (ainda deputado) e outros grandes nomes da época.

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Também nessa parte da história que conhecemos o meu personagem favorito, Floriano, filho de Rodrigo e baseado no próprio Erico Veríssimo. Interessante ressaltar as desavenças políticas no seio da própria família Terra Cambará, tendo os filhos de Rodrigo cada um seguido por um lado: Jango, o estancieiro, Eduardo, o comunista, e Floriano, o apaziguador, como gosto de chamar… O escritor, o sonhador, que mede os prós e os contras das ideologias com equilíbrio e bom-senso. Também o personagem com que mais me identifiquei na saga.

“Aos sons de um frevo frenético, Floriano encaminha-se para a rua principal. Sabe o que o espera neste passeio. Terá de parar mil vezes para abraçar conhecidos e – o que é pior – pessoas que não conseguirá reconhecer. Sempre teve uma consciência muito viva de sua timidez e da sua preguiça de responder às perguntas que lhe fazem, de mostrar-se simpático, atencioso, bom moço. Lembra-se de Ravengar, um herói de sua meninice, personagem de um romance-folhetim e de um filme seriado, inventor de um manto que tinha a virtude de torná-lo invisível. Floriano lamenta não estar agora envolto na capa de Ravengar. Mas não! Está decidido a queimar, destruir para sempre esse manto mágico, pois quer fazer-se visível como nunca, estar presente, participar… Vai ser duro, ah!, isso vai, mas está resolvido a levar a experiência até o fim.” (O Arquipélago)

Bom, posso não ser a pessoa mais “gaudéria”, mas essa história me cativou, e muito!  ❤
E quem mais leu, o que acharam??

Beijos e até o próximo post!

“O tempo é como um barco a vela. Nos dias em que o vento sopra pela popa, o tempo anda depressa. Mas quando o barco navega contra o vento, então as horas parecem semanas e os meses, anos” (O Arquipélago)

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5 comentários sobre “O Tempo e o Vento – Erico Veríssimo

  1. Quero um dia ler essa coleção, me interessei quando conheci um pouco da história através da minissérie exibida na TV. Do Erico Veríssimo, eu li Incidente em Antares e gostei bastante.
    Ah, você está linda com esse vestido vermelho, me recordei da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”
    Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

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